Síndrome de Burnout

Profª Drª Carmita H. N. Abdo
CRM 22.932/SP

Psiquiatra, Livre-Docente e Professora Associada do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Introdução

A expressão "staff burnout" foi criada pelo psicanalista Herbert Freudenberger, em 1974, para descrever uma síndrome que ele mesmo e seus colegas enfrentavam. Composta por exaustão, frustração e isolamento, Burnout identifica a reação ao intenso desgaste físico e mental pelo trabalho.1 Essa síndrome tem sido tema de estudos e de debates em congressos, como "Burnout entre os psiquiatras" realizado no 159º Encontro Anual da Associação Americana de Psiquiatria.2

Reconhecida como risco ocupacional para profissões que implicam cuidados com a saúde, a educação e os serviços,3-5 consta do Grupo V da Classificação Internacional das Doenças (CID-10), no item XII dos Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados com o Trabalho: "Sensação de Estar Acabado" ("Síndrome de Burnout", "Síndrome do Esgotamento Profissional"), cujo código é Z73.0.6.

A associação entre estresse ocupacional e saúde mental tem sido cada vez mais pesquisada, em função dos índices crescentes de absenteísmo, incapacidade temporária, aposentadoria precoce e riscos à saúde associados ao trabalho.7,8 No Brasil, o Decreto nº 3.048 (6 de maio de 1999) aprovou o Regulamento da Previdência Social e, em seu Anexo II, trata dos Agentes Patogênicos causadores de Doenças Profissionais.9
Segundo pesquisa realizada pela International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), o Burnout atinge 30% dos profissionais brasileiros.10

Definição de Burnout

O termo Burnout pode ser traduzido como queima completa, sugerindo que o profissional portador dessa síndrome se consumiu física e emocionalmente. Trata-se de uma reação à tensão emocional crônica, resultante de trabalho exaustivo com pessoas.11 Apresenta três dimensões relacionadas, mas independentes: exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização profissional.

Falta de energia e de entusiasmo caracteriza a exaustão emocional, que se deve à percepção de esgotamento de recursos, somada ao sentimento de frustração e à tensão por falta de condições de utilizar mais energia para o trabalho. Segue-se a despersonalização, pelo crescente distanciamento, que leva o profissional a tratar as pessoas que atende, os colegas e a instituição com indiferença. Consequentemente, a realização é autoavaliada de forma negativa, trazendo insatisfação com o desenvolvimento no trabalho, sentimento de incompetência e insucesso, além de incapacidade para interação.8,11

Como a atividade produtiva não se consolida de forma individual, mas num contexto interativo, em equilíbrio com a saúde individual e a coletiva,12 a Síndrome de Burnout prejudica o profissional, a quem ele serve, os colegas e a instituição.8

Desenvolvimento da Síndrome de Burnout

Desenvolvimento da Síndrome de Burnout

Essa síndrome é o estágio final de uma série de tentativas frustradas de manejo do estresse laboral crônico, que se produz especialmente nas profissões de assistência, sendo um fator determinante para o seu desencadeamento o tipo da relação com a clientela.13

O primeiro estágio se caracteriza por envolvimento excessivo com a clientela e sobrecarga de trabalho. A frustração das expectativas conduz a sentimentos de decepção, o que leva ao segundo estágio (o de estagnação), com baixo rendimento profissional. Na sequência, ocorrem apatia, paralisação das atividades, problemas emocionais, comportamentais e físicos. Por fim, o profissional se distancia, tomado por sentimento de vazio, devido à frustração crônica. Desvalorizado, passa a evitar desafios e clientes.14,15

Lidar com a Síndrome de Burnout

Para o enfrentamento da Síndrome de Burnout são necessárias intervenções focadas:16

Portanto, as ações devem se centrar na resposta do indivíduo (individual), no contexto ocupacional (organizacional) e na interação contexto ocupacional/indivíduo (combinadas).8,17

Quadro Clínico da Síndrome de <em>Burnout</em> e Tratamento do Profissional

Quadro Clínico da Síndrome de Burnout e Tratamento do Profissional

Os sinais e sintomas associados à síndrome são físicos (fadiga, distúrbios do sono e gastrintestinais, cefaleia, letargia, dores musculoesqueléticas), psíquicos (humor depressivo, ansiedade, irritabilidade, sentimento de desesperança, baixa autoestima, comprometimento da memória), comportamentais (agressividade, atitude defensiva, isolamento, pessimismo, cinismo, uso de drogas e abuso de álcool) e profissionais (absenteísmo, diminuição de desempenho, falta de comprometimento, baixa concentração, comunicação precária).20

O tratamento pode exigir antidepressivos, ansiolíticos e psicoterapia.20Recomendam-se, também, medidas para melhorar a qualidade de vida, reavaliando rotinas, estimulando atividade física regular, além de exercícios de relaxamento, alimentação saudável, prática de hobbies e mais contato com familiares e amigos.21

Profissões mais Afetadas

A Síndrome de Burnout pode afetar qualquer profissão, entretanto têm maior fator de risco aqueles que vivem para o trabalho, possuem níveis de exigência muito altos e buscam o perfeccionismo.18 Profissionais que impactam mais diretamente a vida de outras pessoas costumam ser mais afetados, tais como médicos, enfermeiros, professores, jornalistas, advogados, psicólogos, policiais, bombeiros, carcereiros, oficiais de justiça, assistentes sociais, atendentes de telemarketing, bancários e executivos.19

Prevenção Pessoal da Síndrome de Burnout

As recomendações abaixo auxiliam na prevenção e no enfrentamento da Síndrome de Burnout.22

Não estar conectado ao trabalho o tempo todo
Não estar conectado ao trabalho o tempo todo: estar disponível 24 horas por dia, todos os dias da semana, pode trazer problemas à saúde.
Atenção aos sinais do corpo
Atenção aos sinais do corpo: mal-estar e dor são sinais de alerta que o corpo está emitindo.
Quadro Clínico da Síndrome de <em>Burnout</em> e Tratamento do Profissional
Planejar também as horas de descanso: contribui para que esse tempo seja dedicado realmente ao relaxamento. Organizar-se para o cotidiano.
Quadro Clínico da Síndrome de <em>Burnout</em> e Tratamento do Profissional
Não utilizar de rotina medicamentos para dormir: o uso crônico dessas substâncias pode alterar processos cerebrais.
Incluir intervalos regulares, durante o trabalho
Incluir intervalos de repouso, durante o trabalho: pausas de 15 minutos a cada hora trabalhada. Fazer o intervalo quando já estiver cansado(a), pode não surtir efeito.
Apoiar-se em sistemas de suporte
Ter apoio: família e amigos ajudam a viver melhor e a se divertir.

Vídeos

Assista alguns vídeos que podem te ajudar a entender a síndrome de burnout.

Referências Bibliográficas

  1. Freudenberger HJ. Staff Burnout. J Soc Issues. 1974;30:159-65.
  2. Sharkey J, Chong SC. Physycian heal thyself: workplace Burnout among psychiatrists. In: Program and abstracts of the 159th Annual Meeting of the American Psychiatric Association; May 20-25, 2006; Toronto, Canada. Issue workshop 21.
  3. Golembiewski RT. Next stage of Burnout research and applications. Psychol Rep. 1999;84:443-6.
  4. Maslach CG. Prevention of Burnout: new perspectives. Applied and Preventive Psychology. 1998;7:63-74.
  5. Murofuse NT, Abranches SS, Napoleão AA. Reflexões sobre estresse e Burnout e a relação com a enfermagem. Rev Latino-Am Enfermagem. 2005;13:255-61.
  6. Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
  7. Vieira LC, Guimarães LAM, Martins DA. O estresse ocupacional em enfermeiros. In: Guimarães LAM, Grubits S. Saúde mental e trabalho. 3ª ed. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2003. p. 169-85.
  8. Moreno FN, Gil GP, Haddad MCL, Vannuchi MTO. Estratégias e intervenções no enfrentamento da síndrome de Burnout. Rev Enferm UERJ (Rio de Janeiro). 2011;19(1):140-5.
  9. Brasil. Decreto no 3.048, de 6 de maio de 1999. Aprova o Regulamento da Previdência Social, e dá outras providências. Diário Oficial da União. 7 de maio de 1999.
  10. International Stress Management Association. Trabalho, stress e saúde: prevenindo o Burnout: da teoria à ação. 2006. Disponível em: <http://www.ismabrasil.com.br/tpls/147.asp?idPagina=49&idPg=601&mAb=n>. Acesso em: 31 de agosto de 2017.
  11. Maslach C, Jackson SE. The measurement of experienced Burnout. J Occup Behav. 1981;2:99-113.
  12. Carlotto MS, Palazzo LS. Síndrome de Burnout e fatores associados: um estudo epidemiológico com professores. Cad Saúde Pública. 2006;22(5):1017-26.
  13. Rodriguez-Marín J. Psicología social de la salud. Madrid: Editorial Síntesis, 1995.
  14. Edelwich J, Brodsky A. Burnout: stages of desillusionanment in the helping profession. New York: Human Sciences Press, 1980.
  15. Carlotto MS. A relação profissional-paciente e a síndrome de Burnout. Encontro: Revista de Psicologia. 2009; XII:17:7-20.
  16. Murta SG, Tróccoli BT. Stress ocupacional em bombeiros: efeitos de intervenção baseada em avaliação de necessidades. Estudos de Psicologia (Campinas). 2007;24(1)41-51.
  17. Benevides PAMT. Burnout: o processo de adoecer pelo trabalho. In: Benevides PAMT (org.) Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. São Paulo: Editora Casa do Psicólogo; 2002. p. 21-91.
  18. Stoeber J, Damian LE. Perfectionism in employees: Work engagement, workaholism, and Burnout. In: Sirois FM, Molnar DS (eds.). Perfectionism, health, and well-being. New York: Springer; 2016, p. 265-83.
  19. Maslach C, Schaufeli WB, Leiter MP. Job Burnout. Ann Rev Psychol. 2001;52:397-422.
  20. Kakiashvili T, Leszek J, Rutkowski K. The medical perspective on Burnout. Int J Occup Med Environ Health. 2013;26(3):401-12.
  21. Garroza-Hernández E, Benevides-Pereira AMT, Moreno-Jiménez B, González JL. Prevenção e intervenção na síndrome de Burnout: como prevenir (ou remediar) o processo de Burnout. In: Benevides-Pereira AMT (org.) Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2002, p. 227-71.
  22. Greaves J, Bradberry T. Inteligência emocional 2.0 - Você sabe usar a sua? São Paulo: HSM Editora, 2014.