Como a pandemia transformou o uso de dados de pacientes

Diariamente, milhares de informações de casos confirmados e suspeitos de COVID-19 são coletadas, processadas e divulgadas. A utilização de dados na medicina não é novidade, mas a forma e a amplitude desse uso na pandemia é algo sem precedentes, que provavelmente jamais será igual.

Uma série de práticas e tendências já abordadas no #SeCuidaDoutor utilizam, processam ou armazenam de alguma forma dados pessoais de pacientes. É o caso por exemplo da telemedicina e da medicina de precisão, dois exemplos de áreas que podem ganhar espaço mais rapidamente nos próximos anos.

Para quem não trabalha na área da saúde, atualizações diárias no número de mortes e de testes positivos para o novo coronavírus apenas ajudam a entender a gravidade do problema e se o cenário parece melhorar ou piorar. Para quem atua no combate à pandemia, são sinais preciosos para definir quais devem ser os próximos passos ou para verificar se a estratégia adotada até aqui precisa ser repensada.

O uso de dados na crise vai muito além do processamento das informações ditadas pelo paciente ou detectadas em exames diagnósticos. Desde março, uma série de iniciativas foram criadas no Brasil para tornar o combate à doença mais assertivo a partir de dados pessoais. Foi o que ocorreu, por exemplo, em Recife, no Rio de Janeiro e, posteriormente, em outros municípios, com o uso de informações geradas pelo sinal de celular para monitorar aglomerações.

Foram diversas empreitadas, algumas organizadas pelo poder público, pelas empresas de telecomunicações e mesmo por grandes companhias de tecnologia —Google e Apple foram algumas das que programaram interfaces de monitoramento para combater a doença a partir de dados de usuários.

Discussões e controvérsias

Há uma discussão recorrente sobre a qualidade dos dados disponíveis na pandemia. Um artigo publicado no JAMA (Journal of the American Medical Association) chama a atenção para a necessidade de ter dados mais precisos, imediatos e confiáveis sobre a saúde da população dos Estados Unidos —um país em que a qualidade e refinamento dessas informações é superior ao brasileiro.

Ainda mais em alta está o debate sobre privacidade e segurança da informação. Alguns países como a Coreia do Sul adotaram medidas agressivas para coletar os dados e rastrear a população, como uso de imagens de câmeras de segurança, reconhecimento facial e até observação dos padrões de gastos bancários. Esse tipo de conduta é alvo de questionamentos no mundo todo. No Brasil, entidades de defesa do direito do consumidor, como o Idec, têm se pronunciado pedindo cautela e regras mais claras para o uso de dados de pessoas com suspeita de contaminação.

Um dos riscos apontados por especialistas no tema, sobretudo em relação às iniciativas que envolvem o poder público, é a manutenção do monitoramento de indivíduos mesmo após a pandemia —ainda que, no Brasil, a maioria utilize apenas dados anônimos e agregados, sem possibilidade de individualizar as informações.

Iniciativas pioneiras

Diversas parcerias entre instituições de saúde e empresas de tecnologia foram anunciadas ao longo da pandemia para melhorar a qualidade das informações, criar novos modelos estatísticos, organizar bancos de dados para colaborar com o combate à COVID-19 ou acelerar as pesquisas de tratamentos ou vacinas.

Separamos algumas das mais interessantes:

  • COVID-19 Data Sharing BR: consórcio liderado pela Fapesp, USP, Grupo Fleury, Hospital Sírio-Libanês e Hospital Israelita Albert Einstein criou um repositório a fim de fomentar a pesquisa científica com dados demográficos e exames clínicos de mais de 75 mil pacientes que fizeram testes para a doença em São Paulo.
  • Infogripe: plataforma organizada pela Fundação Oswaldo Cruz desde 2014, traz uma base de dados permanente sobre o número de casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) no país, o que inclui a COVID-19.
  • Monitor da COVID-19: projeto que reúne e monitora publicações oficiais relacionadas à COVID-19 no Brasil, com mais de 50 mil postagens e mais de 20 mil publicações analisadas
  • PEPP-PT: sigla para Pan-European Privacy-Preserving Proximity Tracing (ou Rastreamento de Proximidade Preservador de Privacidade Pan-Europeu, em tradução livre), a iniciativa busca desenvolver uma tecnologia de rastreamento menos invasiva, utilizando o sinal de bluetooth dos celulares, sem identificar os usuários ou o local em que estiveram.
  • Outros cases internacionais: um artigo publicado na revista científica Lancet comparou as aplicações de tecnologia digital no combate à COVID-19, entre elas assistentes com inteligência artificial baseados em nuvem para detectar casos do novo coronavírus na China e monitoramento de dados gerados por smart watches na Alemanha.

*A Bayer não tem parceria ou se responsabiliza pelos serviços citados e prestados por terceiros.

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