Como a transformação digital pode tornar a medicina mais humana

Um dos receios iniciais ao se discutir o maior uso de telemedicina foi a possível perda de qualidade de atendimento na relação entre médico e paciente. Diversas soluções, porém, permitem o contrário: um contato ainda mais próximo entre as duas partes.

Há no meio médico, inclusive, quem argumente que a transformação digital pode tornar a medicina mais humana. O reitor da Escola de Medicina da Universidade Stanford, Lloyd B. Minor, é um dos defensores dessa tese. E usa a pandemia de COVID-19 como exemplo.

Em artigo na revista Fortune, Minor cita a decisão do hospital de Stanford de espalhar iPads nos quartos de pacientes a partir de abril deste ano. Após uma primeira triagem e consulta feita pessoalmente, grande parte dos casos do novo coronavírus foram acompanhados virtualmente pelos médicos.

A ideia original da mudança era poupar o uso de EPIs e otimizar o tempo dos profissionais de saúde, permitindo que mais pacientes fossem atendidos. Mas o atendimento com os iPads permitiu trazer mais empatia aos leitos, como explica o reitor. "Muitos [médicos] viram que ficar enclausurado em EPIs reduzia significativamente a habilidade deles de transmitir confiança e de se conectar aos pacientes. Reunir-se virtualmente permitiu que eles removessem essas camadas, criando um espaço para empatia quando isso era mais necessário", afirma no artigo.

Outro exemplo foi o de uma paciente que falava espanhol e que testou positivo para COVID-19. Ao chegar no hospital de Stanford, ela se mostrava bastante ansiosa, com receio de ter contaminado a mãe. Ao usar a telemedicina, foi possível utilizar um tradutor para mantê-la atualizada com frequência.

São exemplos simples, mas, como afirma o reitor de Stanford, "são nesses pequenos gestos que o potencial humanizador da saúde digital é revelado".

A transformação digital também deverá apoiar a evolução para um sistema de saúde mais personalizado e com base em cada vez mais dados, conforme afirma o médico e autor especialista no tema Eric Topol em entrevista à consultoria KPMG. São as novas ferramentas e tecnologias que permitirão um atendimento menos genérico e desenvolvido de acordo com as necessidades de cada indivíduo, com o paciente no centro.

A adoção de novas ferramentas também proporciona um recurso fundamental para um atendimento mais próximo e humano na saúde: o tempo. Em artigo na Nature, os médicos americanos Haider Warraich, de Duke, Robert Califf, de Stanford, e Harlan Krumholz, de Yale,

mostram que, ao conseguir resolver tarefas mundanas e repetitivas, a transformação digital na medicina abre espaço para que os médicos tornem o atendimento mais centralizado nos pacientes, com mais tempo para engajar com quem está sendo atendido.

Há também outros exemplos, como o uso de fenotipagem digital, que consiste no uso de sensores e algoritmos para digitalizar parâmetros fisiológicos. "A chave para desenvolver relações terapêuticas efetivas entre pacientes e clínicos é compreender tanto os sinais verbais como não-verbais de pacientes. A fenotipagem digital tem potencial para melhorar isso de maneira vasta", afirmam os autores.

Para que essa transformação digital realmente aproxime em vez de afastar, um ponto é central, segundo o artigo na Nature. "Para a transformação digital da medicina construir pontes mais fortes entre equipes de saúde e pacientes, é preciso elevar a ênfase em segurança de dados e transparência. Se pacientes não podem confiar que seus dados estarão seguros, transparentes e acessíveis a eles, a coleta de dados pode aumentar a desconfiança sobre sistemas de saúde em vez de diminui-la."

*A Bayer não tem parceria ou se responsabiliza pelos serviços citados e prestados por terceiros.

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