Como lidar com o luto por colegas profissionais de saúde

Durante a residência, escreve Amitha Kalaichandran, mestre em saúde pública pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, estudantes de medicina lidam com uma espécie diferente de luto. Lamentam o fim de seu “eu” anterior para se acostumar a um novo sistema, em que a morte ganha um outro significado e em que seu próprio bem-estar costuma ser menos valorizado.

Na crise do novo coronavírus, a relação dos profissionais de saúde com o luto ganha um componente a mais: a maior probabilidade de verem colegas de profissão, sejam da linha de frente ou não, partirem por causa da doença.

O momento requer atenção e cautela: a Anvisa ampliou a quantidade de antidepressivos que cada paciente pode comprar por vez no fim de março e, desde 2016, as vendas deste medicamento aumentaram 23% no país. A COVID-19 já tem causado um aumento na demanda por tratamentos psiquiátricos, segundo o presidente da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), Antônio Geraldo da Silva —algo especialmente preocupante em um país que tem cerca de 12 milhões de pessoas com depressão.

Pesquisas apresentadas em artigo da revista científica The Lancet apontam que pessoas que passaram por um período de quarentena em outras epidemias apresentaram uma maior prevalência de sintomas ligados a distúrbios psicológicos, como depressão, estresse, irritabilidade, insônia e mau humor.

De acordo com o artigo, é essencial que as pessoas em isolamento social tenham acesso a informação para compreender a situação e consigam insumos e equipamentos de proteção quando necessário. Para evitar impactos psicológicos mais profundos, os pesquisadores indicam também que autoridades públicas devem evitar ajustar a duração do período de isolamento e devem enfatizar como a redução temporária do contato social é uma escolha altruísta.

Impacto nos profissionais da saúde

Na crise do novo coronavírus, limitações impostas a familiares de pacientes se estendem também aos médicos. Como afirma a doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP Luciana Mazorra em entrevista, alguns passos que são fundamentais no processo de construção de sentido da morte e na aceitação da perda foram suprimidos na atual pandemia.

Assim como parentes de vítimas não conseguem acompanhar os últimos dias do doente no hospital nem têm organizado funerais como desejariam, profissionais da saúde encontram dificuldades para se despedir de seus colegas de profissão.

Todos esses obstáculos em uma situação tão exaustiva como a atual tornam ainda mais complexo lidar com o luto de pacientes e, principalmente, de outros médicos e enfermeiros.

Ajuda e conforto

Não há regras bem definidas para lidar com perdas —ainda mais em uma pandemia—, mas a busca por apoio e algumas reflexões podem ajudar. Grupos organizados por instituições como o da UFMG e Associação Brasileira de Neuropsiquiatria ou como o Quatro Estações Instituto de Psicologia têm oferecido auxílio focado em profissionais de saúde.

Médicos especialistas no tema ouvidos pela APA (American Psychological Association) dão algumas recomendações:

  1. Luto é algo natural – Segundo George Bonanno, professor da Universidade Columbia, o luto é o momento de olhar para dentro e recalibrar: “O mundo não é mais assim, eu preciso me adaptar. Tudo bem lamentar algo que estamos perdendo. Quando fazemos isso, permitimos que o luto faça seu trabalho e, assim, podemos seguir em frente.”

  2. A perda impacta nossa identidade – De acordo com Bonanno, é preciso perceber que não lamentamos apenas o que partiu, mas as formas como aquela perda impacta nosso senso próprio.

  3. A técnica de nomear e reivindicar – Robert Neimeyer, professor emérito da Universidade de Memphis, afirma que uma boa técnica é trabalhar a comunicação. “As pessoas muitas vezes têm um sentido vago de ansiedade ou um sofrimento sem palavras. Nomeie o que você perdeu e escreva seus pontos fortes e habilidades para lidar com o luto. A maioria de nós nunca passou por algo assim, mas já enfrentamos outras transições desafiadoras.”

  4. Conexões sociais importam – Uma rede de apoio social pode ser crucial para seguir em frente em vez de ficar preso no luto. Em tempos de isolamento social, isso pode ser um problema, já que o contato com outras pessoas está limitado, mas as ferramentas tecnológicas devem ser utilizadas para manter essas conexões ativas.

Além disso, no site do Se Cuida Doutor há também uma relação com sugestões de acolhimento psicológico. Não deixe de buscar apoio se necessário.

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