Evolução e perspectivas da pressão no sistema de saúde

A evolução da pandemia parece ter arrefecido no Brasil por ora, o que levou hospitais públicos e privados a um breve relaxamento quanto à demanda por leitos para pacientes na luta contra o novo coronavírus. Ainda assim, outros fatores podem colocar pressão no sistema nos próximos meses.

Enquanto a Europa já discute os possíveis efeitos de uma segunda onda de contaminação, o Brasil tem hoje o melhor cenário na ocupação de leitos de UTI desde que a pandemia se iniciou. O boletim Observatório COVID-19 publicado pela Fiocruz em 16 de outubro mostra que nenhum estado tem hoje uma taxa de ocupação classificada como alta (acima de 80%). Os piores quadros são as taxas de Goiás (74%), Rio de Janeiro (73%) e Pernambuco (70%), consideradas moderadas.

A melhora se deve, em grande parte, à expansão da capacidade hospitalar no país, priorizada em todos os estados, ainda que com atraso em muitas cidades. Desde fevereiro, o número de leitos de UTI para adultos cresceu 71,9% e chegou a 52,9 mil — cerca de 40% deles estão reservados para pacientes com COVID-19.

Apesar dos indicadores apontarem um cenário mais tranquilo que o do primeiro semestre, diversos fatores podem manter o sistema de saúde pressionado nos próximos meses. A Fiocruz ressalta que a maioria dos pacientes do novo coronavírus não precisa de internação e que falta investimento na atenção primária à saúde.

"Não se pode perder o foco no aprimoramento da capacidade de resposta aos desafios que ainda podem advir da COVID-19 e, eventualmente, outras condições que podem emergir. É possível que o sistema ainda tenha de experimentar momentos de expansão e retração para lidar com as demandas de serviços postas pela pandemia", afirma a fundação no boletim.

É preciso levar em consideração também a distribuição heterogênea de leitos e pacientes em cada hospital. Ao final de setembro, em Santa Catarina, por exemplo, 58% dos leitos de UTI estavam ocupados, mas três hospitais estavam lotados.

Uma possibilidade é que, com o afrouxamento do isolamento social e da quarentena, o número de procedimentos clínicos e cirúrgicos, que sofreu forte redução desde a segunda quinzena de março, quando se agravou a crise do novo coronavírus no Brasil.   Só no SUS, o número de cirurgias eletivas caiu 61,4% de março a junho na comparação com a média dos últimos cinco anos.

Um reaquecimento da demanda por procedimentos pode voltar a pressionar a busca por leitos de hospital. "A segunda onda provavelmente não será causada pela COVID-19, mas pela quantidade enorme de pacientes que retornarão para serem tratados por outras doenças em situação muito pior do que se encontravam antes da pandemia", afirma Gustavo Judas, presidente da Sociedade de Cirurgia Cardiovascular do Estado de São Paulo, ao Estadão.

*A Bayer não tem parceria ou se responsabiliza pelos serviços citados e prestados por terceiros.

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