Por que a próxima corrida da pandemia pode ser por freezers

No início da pandemia, o então ministro brasileiro da Saúde, Henrique Mandetta, fazia diariamente um apelo à população: usem máscaras feitas em casa e deixem os equipamentos mais elaborados, como máscaras N95, para os profissionais da saúde. A preocupação era a falta de EPIs para médicos, enfermeiros e quem mais atuava na linha de frente do combate contra a COVID-19.

Assim como em outros países, houve uma disputa por equipamentos de saúde. Houve também uma corrida global por respiradores, num momento em que a situação se agravava em todo o mundo e a oferta não conseguia acompanhar a demanda.

Agora, à medida que boas notícias sobre vacinas contra o novo coronavírus começam a se multiplicar, já se discute como as doses serão distribuídas, que grupos populacionais e que países terão preferência, e como países em desenvolvimento conseguirão concorrer com o poder de compra dos países mais desenvolvidos.

Ou seja, numa situação crítica como uma pandemia, o fornecimento de produtos, insumos, mão de obra ou outros bens se torna mais complexo devido à alta demanda. Agora que a imunização contra a COVID-19 surge no horizonte, uma nova corrida começa a se desenhar: a por sistemas refrigeradores.

Duas das vacinas mais avançadas, a das farmacêuticas Moderna e Pfizer, precisam ser armazenadas a temperaturas negativas. A -20 ºC e -70ºC, respectivamente.

Ambas são baseadas em sistemas de RNA mensageiro (mRNA), capazes de induzir a produção de proteínas parecidas com a da COVID-19. Para que funcionem adequadamente, é necessário armazenar as doses em baixíssimas temperaturas, conforme explica ao UOL o virologista do Centro de Tecnologia de Vacinas e pesquisador do Departamento de Microbiologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Flávio Guimarães da Fonseca.

"Em laboratório, você cria uma sequência genética capaz de induzir a produção de proteínas parecidas com a do novo coronavírus e a insere em partículas lipídicas — que são muito delicadas, daí a necessidade da temperatura — e que possibilitam o transporte dessa sequência genética para dentro das células da pessoa vacinada. Quando a sequência genética entra na célula, ela induz a formação de uma proteína idêntica a uma proteína do coronavírus. O sistema imunológico reconhece essa proteína e gera células de defesa ou anticorpos, uma defesa que protege o organismo da infecção real", explicou ao site.

A difusão de sistemas de logística e de armazenamento para que as novas vacinas sejam bem-sucedidas é uma preocupação das farmacêuticas, que têm anunciado projetos que permitam transportar o imunizante.

Governos de vários países já estudam, neste momento, como distribuiriam as doses em um cenário tão complexo. Nos Estados Unidos, já há uma corrida por gelo seco e freezers. Segundo um fabricante, a espera para adquirir um sistema de refrigeração de US$ 15 mil já é de seis semanas, e as vendas registram um aumento de 250% em relação ao primeiro trimestre.

Em todo o mundo, as ações de fabricantes de freezers dispararam por causa das notícias positivas sobre as vacinas de Pfizer e Moderna nas últimas semanas.

No Brasil, apenas algumas universidades, centros de pesquisa e laboratórios de ponta possuem sistemas de refrigeração tão avançados. Levar a vacina de mRNA para a rede pública em estados distantes das grandes metrópoles exigirá investimentos relevantes em logística e sistemas refrigeradores.

Outras duas vacinas em fase mais avançada, a do Instituto Butantan/Sinovac e a da Oxford/Fiocruz, foram desenvolvidas com outras tecnologias e não necessitam de ultra refrigeração. Ainda assim, o combate a uma doença tão devastadora como a COVID-19 exigirá diversas frentes de ação, e discutir logística e distribuição de freezers no Brasil tende a ser inevitável.

*A Bayer não tem parceria ou se responsabiliza pelos serviços citados e prestados por terceiros.

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