Por que a taxa de mortalidade da segunda onda de COVID-19 parece ser menor que o da primeira

Hospitais, inclusive do Brasil, voltaram a alertar para o crescimento de leitos ocupados por COVID-19, num movimento classificado por alguns países como uma segunda onda. Por que a taxa de letalidade não cresceu no mesmo ritmo da taxa de contaminação?

Um estudo conduzido por pesquisadores de universidades americanas e chinesas analisou a taxa de mortalidade do novo coronavírus (número de mortes dividido pelo número de casos) em 53 países que já apresentaram algo semelhante a duas ondas de contágio entre fevereiro e setembro.

Dos países analisados, 43 apresentaram taxas de mortalidade da segunda onda inferiores às da primeira. Os pesquisadores do estudo publicado no periódico científico Transboundary and Emerging Diseases apontaram cinco principais hipóteses para essa diferença:

1- Pesquisadores afirmam ser possível que uma quantidade significativa de idosos e pessoas com comorbidades tenha morrido na primeira onda. Em contrapartida, países ou regiões que foram poupados da primeira fase podem ter uma taxa de mortalidade mais elevada na segunda;

2- Capacidade de testes e do próprio sistema de saúde melhorou na segunda onda, o que levou casos mais leves e assintomáticos a serem mais reportados nas fases mais recentes, enquanto casos mais severos podem ter recebido tratamento mais precocemente, reduzindo a taxa de mortalidade;

3- A estrutura etária dos infectados pode ter se alterado da primeira para a segunda onda por diversos motivos, como o afrouxamento mais intenso do distanciamento social nas faixas mais jovens;

4-  É possível que o vírus tenha evoluído para aumentar sua taxa de transmissão em adultos jovens saudáveis e crianças, o que pode também ter sido facilitado pelo descumprimento de medidas de isolamento social dessas faixas;

5 - Por fim, fatores ambientais podem ter levado a uma redução da taxa de mortalidade, entre eles temperaturas mais quentes no hemisfério norte e melhor qualidade do ar devido aos lockdowns e medidas de quarentena.

Os pesquisadores ressaltam que as evidências atuais ainda não permitem apontar uma hipótese mais provável, embora surtos normalmente sejam causados por mais de um ou dois fatores.

Profissionais da saúde ouvidos pelo jornal O Globo alertam para o fato de que esse cenário, em que a taxa de mortalidade ainda não está tão elevada quanto nos meses anteriores, pode passar a impressão de que a doença está diminuindo em gravidade, o que não é necessariamente preciso.

O cientista Márcio Bittencourt, da USP, também afirma que é possível que parte relevante dos mais vulneráveis à doença tenha morrido na primeira fase da pandemia — efeito conhecido como “harvesting effect” em inglês.

Enquanto isso, no Brasil, o número de mortes voltou a crescer de forma significativa desde o início de novembro. A contagem ainda não superou o pico registrado em julho, mas instituições de saúde e entidades já alertam para os riscos da alta nas internações por COVID-19 e para a possível sobrecarga dos sistemas de saúde estaduais e municipais.

*A Bayer não tem parceria ou se responsabiliza pelos serviços citados e prestados por terceiros.

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