Tudo sobre a vacina da Rússia contra a COVID-19

No dia 11 de agosto de 2020, o presidente russo Vladimir Putin anunciou a notícia que todos esperam: foi registrada uma vacina para o novo coronavírus. Em vez de alívio, porém, o anúncio trouxe dúvidas. Não só pela velocidade recorde para desenvolvimento de uma vacina, mas também pela falta de transparência e de estudos comprovando a eficácia e segurança da descoberta.

Batizada de Sputnik V, a vacina desenvolvida pelo Instituto Gamaleya tem gerado controvérsia na comunidade científica, nas discussões geopolíticas e em redes sociais. Um dos principais motivos é a ausência de estudos ou dados científicos públicos sobre os testes realizados até o momento.

A vacina foi desenvolvida a partir de um vetor viral não-replicante, incapaz de se reproduzir, que carrega o material genético do vírus com o objetivo de induzir a produção de anticorpos contra a doença.

Na lista de vacinas em acompanhamento pela OMS, com 165 pesquisas em andamento, a solução desenvolvida pelo Instituto Gamaleya não se encontra ainda na fase 3 de estudos clínicos.

Em uma das ocasiões em que manifestou diretamente sobre a Sputnik V, a OMS, através do porta-voz Christian Lindmeier, reforçou em coletiva de imprensa que todas as etapas de testes deveriam ser concluídas antes da decisão de oferecer vacinação em massa à população. A Rússia, porém, afirma já ter produzido o primeiro lote do produto e planeja inicia a vacinação em massa em outubro.

Repercussão

As reações à vacina anunciada pela Rússia têm sido bastante heterogêneas. Devido à falta de dados e de resultados conclusivos sobre eficácia e segurança da vacina, a comunidade científica internacional adotou uma posição cautelosa quanto à Sputnik V.

A OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) informou que não irá se posicionar até a OMS revisar os documentos produzidos pelos cientistas russos. Autoridades dos EUA, Alemanha, também levantam dúvidas a respeito da segurança da solução produzida pelo Instituto Gamaleya.

Há, porém, os que se mostram mais favoráveis à vacina, mesmo na ausência de evidências conclusivas. É o caso do presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, que disse ser voluntário para tomar a vacina caso se mostre eficaz. O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, adotou postura semelhante.

No Brasil, o Paraná é o que se mostra mais aberto à solução. O governo paranaense assinou um memorando de entendimento com a Rússia sobre a vacina com a intenção de iniciar uma parceria.

As autoridades russas declaram que as críticas e dúvidas sobre a vacina não têm base. O presidente russo já afirmou que a nova droga é "bastante eficaz" e que uma de suas filhas teria recebido uma dose.

Geopolítica

A vacina desenvolvida na Rússia não tem causado apenas discussões na área da saúde, mas também evocou lembranças sobre o período da Guerra Fria, em que uma corrida espacial foi iniciada como forma de demonstrar o poderio econômico e científico das potências mundiais.

O próprio nome escolhido para a vacina remete ao período: Sputnik foi o primeiro satélite enviado ao espaço, uma conquista importante para os russos naquele período e uma vitória significativa sobre os rivais americanos.

Para alguns especialistas em relações internacionais, o anúncio pioneiro ou prematuro de uma vacina é uma tentativa da Rússia de se recolocar como uma potência importante no cenário internacional.

Para o professor da UFRJ Leonardo Valente, "estar à frente do Ocidente numa urgência mundial dessas, nessa corrida científica e tecnológica, é crucial para a atração de investimentos e cérebros e também para a dissuasão —que é a capacidade de uma nação dizer para outra: 'ei, eu sou uma potência, não se meta comigo'".

*A Bayer não tem parceria ou se responsabiliza pelos serviços citados e prestados por terceiros.

<< voltar para Covid-19