“Bem-estar do Médico: equilíbrio entre prática clínica, bem-estar e satisfação pessoal”

Prof. Dr.ª Carmita H.N. Abdo

CRM-SP 22.932
Psiquiatra, Professora do Depto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo

INTRODUÇÃO

Evidências de estudos dirimiram as dúvidas a respeito da carreira médica, nos dias atuais: mais da metade dos médicos em todo o mundo está em situação de esgotamento. Este desgaste provoca pior desempenho profissional, aumentando a rotatividade, os erros no diagnóstico e na terapêutica, além de níveis sem precedentes de depressão e algumas das mais altas taxas de suicídio e ideação suicida de qualquer profissão. Some-se a esse quadro a escassez de profissionais de saúde e o crescente aumento da população idosa que necessita de cuidados. Estamos vivendo uma epidemia, escreveu o Prof. Nguyen, da Universidade de Harvard, em 2018.

Burnout associa-se a absenteísmo, presenteísmo, pior desempenho no trabalho, rotatividade, incapacidade crônica e aposentadoria por invalidez. É preditor de lesões graves, insônia e hospitalização por transtornos mentais e cardiovasculares. Tem sido, também, relacionado ao envelhecimento precoce e à mortalidade por todas as causas.

ESPECIALIDADES MÉDICAS E BURNOUT

Uma revisão sistemática sobre Burnout entre médicos avaliou 22 especialidades. As cinco identificadas com maior prevalência de casos foram, em ordem decrescente: medicina de Unidade de Terapia Intensiva, medicina de família, medicina de emergência, medicina interna e ortopedia. Identificaram-se fatores comuns a atuação profissional do médico e outros associados com as especialidades médicas.

Os fatores que se destacam como associados à Síndrome de Burnout (SB) são os relacionados à organização e ao ambiente do trabalho, além da maneira como os profissionais enfrentam o stress. De acordo com o referido artigo, as especialidades médicas são afetadas, em diferentes graus. Para ilustrar: enquanto a prevalência é de 3,0 para a Oncologia, chega a 9,3 para plantonistas de UTI, a 10,9 para ginecologistas e a 22,0 para medicina da UTI, conforme detalhado no quadro abaixo.

QUADRO 1 - Prevalência comparada de Síndrome de BURNOUT (SB) nas diversas especialidades

QUADRO 1 - Prevalência comparada de Síndrome de BURNOUT (SB) nas diversas especialidades

CAUSAS DA SÍNDROME DE BURNOUT NO MEIO MÉDICO

Inúmeras são as causas da síndrome de Burnout em profissionais médicos, variando desde problemas de ordem burocrática até dificuldades para se manter atualizado. São elas:

  • Problemas burocráticos para melhor prover atendimento ao paciente;
  • Dificuldades com o empregador;
  • Excesso de horas trabalhadas ou excesso de consultas diárias;
  • Baixa remuneração;
  • Sentir-se como mera engrenagem em um mecanismo;
  • Pressão por altos resultados vs. baixo custo;
  • Muitos pacientes difíceis ou cansaço por compaixão (superexposição à morte, à violência e às outras perdas dos pacientes);
  • Impossibilidade para prover atendimento com a qualidade que o paciente merece;
  • Dificuldades com colegas ou com staff;
  • Falta de realização profissional;
  • Baixo convívio familiar / social;
  • Dificuldade para se manter atualizado com novas pesquisas e recomendações.

As atitudes geralmente adotadas pelos médicos para enfrentar essa situação seguem na contramão da saúde, conforme mostra o quadro 2.O perfil mais vulnerável é representado por médicas solteiras e jovens. O atendimento ao paciente grave e o primeiro atendimento constituem agravantes.

QUADRO 2- Atitudes adotadas pelos médicos para enfrentar o Burnout

Dormir
Isolar-se dos outros
Comer em excesso e de forma compulsiva
Praticar exercícios em excesso
Conversar com familiares ou amigos próximos
Tocar ou escutar música
Consumir bebidas alcoólicas
Comer junk food
Usar medicamentos de uso controlado
Fumar ou consumir produtos com nicotina
Fumar ou consumir produtos derivados da maconha

O BEM–ESTAR DO MÉDICO

É cada vez mais claro que a crescente ameaça ao bem-estar dos médicos atinge diretamente a qualidade dos cuidados prestados, bem como a saúde e a eficácia das organizações em que eles atuam. Portanto, é altamente positivo que as organizações de saúde comecem a assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento de programas para enfrentar a crise de esgotamento dos médicos: um sistema abrangente, sistemático e de esforços contínuos. Esses esforços são mais eficazes quando abordam elementos motivadores, tais como uma cultura de bem-estar, equilibrio e resiliência.

Uma abordagem abrangente é necessária, no sentido de estabelecer uma plataforma estável que proporcione melhorias sustentadas. Todos os que trabalham em cuidados de saúde devem isso a si mesmos e aos pacientes.

Resiliência pessoal é definida como o conjunto de habilidades, comportamentos e atitudes individuais que contribuem para o bem-estar físico, emocional e social do indivíduo, incluindo a prevenção de Burnout. É de vital importância, em nossa profissão inerentemente estressante, que os médicos internalizem um dever profissional de perseguir esses comportamentos pessoais saudáveis. Mensagens que associam o bem-estar do médico aos resultados do atendimento clínico são fundamentais para atenuar a cultura médica que caracteriza o autocuidado como egoísta. Quando normas culturais apóiam e a prática permite tempo suficiente para o autocuidado, os médicos fortalecem a resiliência pessoal, por meio de: alimentação, exercícios físicos e sono adequados. Estas providencias além de favorecer o bem-estar geral, ainda têm o potencial de melhorar o desempenho cognitivo.

O envolvimento na redução do estresse com base na atenção e no cultivo da compaixão também são atitudes promissoras para a resiliência pessoal.

As estratégias organizacionais de promoção dessa resiliência incluem: adequação do horário de trabalho, acesso a alimentos saudáveis a baixo custo, instalações para exercícios no local de trabalho e acomodações convenientes para um cochilo durante o plantão ou no turno longo.

A resiliência pessoal contribui para a cultura de bem-estar da organização. Os médicos passam a “pregar o que praticam”, o que significa que incentivarão comportamentos de saúde em pacientes, colegas e pessoal de apoio.

A opinião expressa nos artigos não correspondem à opinião da Bayer como empresa.

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Bibliografia consultada

  1. Medscape Physician Lifestyle Report, 2015. [Internet]. Disponível em: https://www.medscape.com/slideshow/lifestyle-2015-overview-6006535#4. Acesso em 06 de janeiro de 2018.
  2. Physician Burnout: The Root of the Problem and the Path to Solutions -A collection of original content from NEJM Catalyst,2018
  3. Alvarenga Moreira e colaboradores- Síndrome de Burnout em médicos: uma revisão sistemática”, Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 2018