“Como lidar com estresse e excesso de trabalho sem cair em armadilhas?”

Dra. Ana Bresser Pereira Tokeshi

CRM-SP 176.609
RQE nº 81490

CRM-SP 72.193

Médicos são seus piores inimigos. Cada um de nós está vulnerável a situações extremamente estressantes tanto na vida profissional como pessoal. Mesmo assim, tendemos a normalizar as nossas angústias e colocar as nossas necessidades em segundo plano. Tendemos a priorizar a saúde dos nossos pacientes, nossas carreiras, ganho financeiro e negligenciar o nosso tempo pessoal para lazer e para família. Fazendo isto, nós perpetuamos o mito de Quíron, o curador ferido da mitologia grega. Quíron era especialmente capaz de compreender o sofrimento com compaixão em relação aos pacientes a partir de sua dor. No entanto, até mesmo um semideus como Quíron teve que abrir mão da sua imortalidade para conseguir se livrar de sua dor. Será que estamos condenados a ser vítimas da nossa onipotência para sermos bons médicos? Esta questão ganhou relevância nas discussões sobre a Síndrome de Burnout que foi recentemente incluída na Classificação Internacional das Doenças (CID – 10; Z 73.0).

O que é Burnout?

Burnout (síndrome do esgotamento profissional) é uma síndrome relacionada do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É composta por três dimensões1:

  • Exaustão Emocional é a sensação de falta ou esgotamento de energia;
  • Despersonalização é o distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados a ele, levando a relacionamentos interpessoais (com colegas ou pacientes) indiferentes, com baixa empatia pelo outro;
  • Redução da realização pessoal é uma sensação de incapacidade produtiva, de autoestima diminuída em relação ao trabalho.

Por que devemos nos preocupar?

A prevalência de Burnout entre médicos, residentes e estudantes de medicina se aproxima de 50%. em estudos nacionais e internacionais, ou seja, 1 em cada 2 médicos sofrem de esgotamento4-6.

Do ponto de vista profissional, Burnout está relacionado a um decréscimo de empatia e está relacionado a vários desfechos negativos em relação ao cuidado com os pacientes, incluindo aumento do tempo de recuperação, falta de profissionalismo e erros médicos.

Do ponto de vista do médico, a síndrome do esgotamento está relacionada a transtornos de humor e ideação suicida, acidentes automobilísticos, uso abusivo de substâncias psicoativas e redução da qualidade de vida.

E, do ponto de vista econômico, estudo realizado nos EUA estimou um prejuízo de cerca de $4.6 bilhões anualmente, seria o equivalente a $7.600,00 por médico por ano. A maior parte dos gastos se deve a altos índices de turnover. Os custos de substituição de um profissional de posição equivalente por período integral têm um impacto econômico cinco vezes maior do que reduzir a carga horária dos profissionais, uma medida que poderia diminuir o burnout e, por tanto, reduzir o turnover e aumentar a produtividade.

O que causa burnout em médicos?

Os fatores de risco para burnout podem ser divididos em três categorias: fatores relacionados ao trabalho, fatores individuais e fatores organizacionais.

Fatores relacionados ao trabalho:

  • jornada de trabalho prolongada
  • especialidade médica
  • plantões médicos frequentes
  • excesso de burocracia
  • perda de autonomia no trabalho
  • risco de processos jurídicos
  • conflitos no trabalho

Fatores individuais:

  • traços de personalidade (perfeccionismo, idealismo)
  • desequilíbrio na relação vida-trabalho
  • privação de sono
  • falta de suporte no ambiente extra-trabalho (família, amizades…)
  • ser do gênero feminino

Fatores organizacionais:

  • carga de trabalho excessiva
  • falta de reconhecimento /retorno financeiro
  • redução de controle sob o ambiente de trabalho
  • lideranças negativas
  • poucas oportunidades para crescimento profissional
  • falta de suporte social
  • carência de infraestrutura e de materiais

Quadro clínico

O padrão-ouro para diagnóstico de burnout em profissionais de saúde é a Masclach Burnout Inventory-Human Services Survey (MBI-HSS), porém alguns estudos indicam que o diagnóstico pode ser feito com duas afirmações:

  • “Sinto-me esgotado(a) pelo meu trabalho” (esgotamento emocional)
  • “Tornei-me mais indiferente em relação às pessoas desde que iniciei este trabalho” (despersonalização)

Indivíduos podem apresentar:

  • alterações físicas: fadiga, alterações do sono, dores musculoesqueléticas, sintomas gastrintestinais, cefaleia, perda de apetite;
  • alterações psíquicas: ansiedade, irritabilidade, tristeza, comprometimento cognitivo;
  • alterações comportamentais: uso abusivo de drogas, isolamento, cinismo, redução de empatia;
  • alterações comportamentais: aumento do absenteísmo, redução do presenteísmo, prejuízo no relacionamento interpessoal, desempenho comprometido.

O domínio de exaustão emocional se confunde com sintomas depressivos, porém a despersonalização e a redução da realização pessoal relacionadas ao trabalho a distinguem do transtorno depressivo.

A síndrome de Burnout não é uma doença, é um fenômeno ocupacional que foi incluído numa classificação médica. Quando os médicos vão cuidar dela?

Estudos indicam que iniciativas focadas na melhora da resiliência dos médicos são necessárias, porém insuficientes. Visto que as organizações podem causar, prevenir e atenuar burnout, ações combinadas nos indivíduos e nas organizações são fundamentais.

Médicos devem ficar atentos e se cuidar, buscando melhorar a qualidade de vida:

  • ficar atento ao seu bem-estar e a possíveis sinais de burnout;
  • reavaliar rotinas: ter horas de descanso, garantir um sono adequado;
  • ter atividades de lazer;
  • ter relações saudáveis além do trabalho (família e amizades);
  • fazer atividade física;
  • garantir uma alimentação saudável;
  • fazer exercícios de relaxamento, como mindfulness;
  • fazer treinamento de manejo de estresse;
  • participar de pequenos grupos de discussão abordando os problemas e pensando em possíveis soluções.

Nas organizações, políticas que mudem a cultura organizacional são fundamentais. Ações sugeridas são:

  • treinamento de lideranças;
  • aumento da autonomia dos médicos;
  • transparência na comunicação;
  • valorização do trabalho;
  • redução de estigma daqueles que buscam ajuda;
  • redução de horas de trabalho;
  • modificações nos processos de trabalho.

É muito comum que pessoas com síndrome de Burnout apresentem um transtorno psiquiátrico comórbido, em especial transtornos de ansiedade e transtornos do humor, tais como depressão. Para estes casos é essencial um bom diagnóstico e tratamento medicamentoso e psicoterapia individual quando indicados.

A grande maioria de nós decidiu ser médico por uma vocação de cuidar, por outro lado, esta vocação nos predispõe a descuidar de nós mesmos. Lidar com o estresse no ambiente de trabalho é absolutamente fundamental. Temos que buscar melhorar a nossa qualidade de vida estabelecendo prioridades e fazendo escolhas, gerando a sensação de controle e a habilidade de atingir os próprios objetivos. A satisfação pessoal é uma sensação transcendente de realização e bem-estar pessoal que ocorre toda vez que vivemos de acordo com nossos valores nucleares. Talvez para escapar da sina de Quíron, na condição de mortais, devamos aprender a viver com as nossas dores de uma forma produtiva e ter a humildade de buscar ajuda quando as coisas fogem do nosso controle.

A opinião expressa nos artigos não correspondem à opinião da Bayer como empresa.

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Referências

  1. De Sá F. Burnout: mais próximo do setor da saúde do que se imagina. 2017. International Stress Management Association no Brasil. Disponível em: http://www.ismabrasil.com.br/img/estresse105.pdf. Acesso em: 26 de setembro de 2019.
  2. Tironi MOS, Teles JMM, Barros DS, Vieira DFVB, Silva-Filho CM; Martins Júnior DF, Matos MA, Nascimento Sobrinho CL. Prevalência de síndrome de burnout em médicos intensivistas de cinco capitais brasileiras. Revista brasileira de terapia intensiva, v.28, n.3, p.270-277, 2016
  3. Patel RS, Bachu R, Adikey A, Malik M, Shah M. Factors Related to Physician Burnout and Its Consequences: A Review. Behav Sci (Basel). 2018;8(11):98. Published 2018 Oct 25. doi:10.3390/bs8110098
  4. Han S, Shanafelt TD, Sinsky CA, et al. Estimating the Attributable Cost of Physician Burnout in the United States. Ann Intern Med. [Epub ahead of print 28 May 2019]170:784–790. doi: 10.7326/M18-1422
  5. Wurm W, Vogel K, Holl A et al. Depression-burnout overlap in physicians. PLoS ONE 2016; 11: e0149913.
  6. West CP, Dyrbye LN, Erwin PJ, Shanafelt TD. Interventions to prevent and reduce physician burnout: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2016 Nov 5;388(10057):2272-2281. doi: 10.1016/S0140-6736(16)31279-X. Epub 2016 Sep 28.
  7. Andolsek KM. Physician Well-Being: Organizational Strategies for Physician Burnout. FP Essent. 2018 Aug;471:20-24.