Cuidado com quem cuida

Dr. Daniel Martins de Barros

Psiquiatra
CRM/SP 100.674
RQe 62246

INTRODUÇÃO

Todos os anos o dicionário Oxford escolhe a palavra do ano – aquela que, por estar presente em muitas conversas, em muitos contextos, de alguma forma resuma o espírito da época. Se a palavra do ano de 2018 foi “tóxico”, que em todas as suas acepções reúne em si a boa parte do que as pessoas sentiram ao longo daquele ano, em 2019 não espantaria se a escolhida fosse burnout. A palavra não é nova, mas é inédito o tanto que se falou nela nos últimos tempos, por ao menos dois motivos.

Em primeiro lugar as empresas têm percebido que cuidar da saúde mental dos trabalhadores é lucrativo. Funcionários com níveis patológicos de estresse, com transtornos ansiosos, deprimidos, com uso problemático de álcool ou outras drogas representam um problema financeiro importante, já que se tornam menos produtivos, faltam mais, desorganizam o ambiente de trabalho e no final geram um passivo trabalhista, colocando as corporações em risco de processos caros e demorados. Demiti-los simplesmente deixou de ser uma solução à medida que a especialização das funções se tornou cada vez mais importante no mercado – com isso ficou mais caro encontrar um novo trabalhador e submetê-lo à mesma curva de aprendizado do que tratar e reabilitar quem está doente [1]. Tal atenção à saúde emocional no local de trabalho colocou em foco o burnout, que já constava como “esgotamento” na décima edição da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O segundo motivo veio justamente da atualização da definição de burnout para a vindoura décima primeira edição foi o segundo fator a levar o tema para a mídia. Em maio de 2019 a assembleia dos estados membros da OMS aprovou a nova edição da CID, que mudava a sucinta definição de “estado de exaustão vital” para a mais detalhada “síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizada por três dimensões: 1) sentimentos de esgotamento ou esgotamento de energia; 2) distanciamento mental do trabalho, sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho; e 3) redução da eficácia profissional. burnout refere-se especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicado para descrever experiências em outras áreas da vida” [2]. Por essa ocasião um porta-voz da OMS deu a declaração de que se tratava da primeira vez em que o desgaste profissional passaria a constar da CID. Embora de fato fosse a primeira vez que se detalhava a importância do trabalho, a imprensa equivocadamente noticiou que o estresse no trabalho havia virado uma doença, colocando o burnout – ainda que de forma enviesada - nas manchetes do mundo todo.

De fato não se trata de uma entidade nosológica, mas de uma situação vivencial, estando por isso mesmo arrolada no capítulo “Fatores influenciado estado de saúde e contato com serviços de saúde”, como a própria OMS se viu obrigada a esclarecer em nota oficial na sequencia desses eventos. Afirmar que não se trata de uma doença, contudo, não tira sua importância.

Epidemiologia e fatores de risco

Sua primeira descrição é atribuída psicólogo alemão Herbert J. Freudenberger, no livro Burnout: The high cost of high achievement, de 1974. Freudenberger observou que cuidadores de dependentes químicos, em sua lida constante com pacientes, sobrecarregados pela demanda emocional e frequentemente frustrados pelos resultados incertos na prevenção das recaída passavam a se apresentar progressivamente apáticos, reduzindo o engajamento no trabalho, perdendo motivação e senso de realização pessoal. Anos depois a psicóloga Christina Maslach reconheceu o mesmo padrão em profissionais da área da saúde no livro Burnout: The cost of caring, desenvolvendo então critérios até hoje utilizados em pesquisa e clínica.

No entanto as metodologias epidemiológicas ainda são heterogêneas, dificultando a obtenção de informações mais precisas com relação a ocorrência de tais situações. Para dar uma ideia, uma revisão sistemática sobre burnout em médicos publicada em 2018 analisou 182 estudos envolvendo 109 628 pessoas em países. Embora 85,7% tivessem usada alguma versão do Maslach Burnout Inventory (MBI) os pesquisadores encontraram 142 interpretações distintas sobre critérios, 47 definições diferentes sobre burnout, levando a resultados de prevalência tão díspares que variavam de 0% a 80,5% [3].

Ainda assim, sabe-se que médicos são uma categoria particularmente afetada, dada a exposição a vários dos principais fatores de risco, dentre os quais alta carga de atividades, trabalhos em turnos, engajamento emocional intenso, altas expectativas.

Sobreposição com depressão

Embora não seja uma doença, a situação vivencial real e desgastante representada pelo burnout é um estressor que funciona como fator de risco para o desenvolvimento de transtornos ansiosos, depressivos, dependências químicas, além de diversas condições clínicas.

Quando plenamente instalado, contudo, o quadro pode ser praticamente indistinguível da depressão. Em 1974, Freudenberger já afirmava que o burnout tornava os pacientes “como se tivessem depressão e agissem como estivessem deprimidos”. E de fato, quanto mais intenso o burnout, mais sobreposição existe entre seus critérios e os sintomas depressivos – médicos que preenchem critérios para quadros moderados de burnout, por exemplo, têm 46.84 vezes (O.R.) mais chance de terem um quadro formal de depressão (risco que passa de 90 vezes se o quadro é grave) [4].

Isso leva à reflexão: porque será que parece mais fácil falar de burnout do que de depressão, sobretudo em se tratando de médicos?

Apesar de todo avanço técnico-científico da psiquiatria o estigma que cerca os transtornos mentais ainda existe. Embora menor do que no passado, as pessoas ainda encaram depressão como sinal de fraqueza, colocando a responsabilidade pelo adoecimento de alguma forma sobre a pessoa acometida. Mas quando pensamos em burnout, mesmo quando os sintomas são exatamente os mesmos, invertemos o vetor da responsabilidade, atribuindo ao estresse no trabalho ou às características do emprego o sofrimento emocional que o profissional está atravessando.

Apontar esse jogo de linguagem não se trata de mero preciosismo, mas de ajustar a conduta para abordar adequadamente tal sofrimento. Porque quando chamamos depressão de burnout e colocamos a culpa no trabalho corremos o risco de focar nossas intervenções apenas nas circunstâncias externas, deixando de cuidar da pessoa em si, o que pode representar a perda de um tempo precioso.

Prevenção

A prevenção do burnout pode ser deduzida a partir de sua própria definição: sendo “resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”, as melhores estratégias tende a se focar nesse gerenciamento. De fato, uma revisão de dezenas de programas de intervenção mostrou que os efeitos positivos na redução do problema mantinham-se eficazes no longo prazo apenas quando as iniciativas mesclavam atuação com os indivíduos e com as organizações [5].

No plano individual, atividade física regular, exercícios de meditação, higiene do sono vêm se mostrando eficazes para reduzir a sensação de estresse subjacente ao problema. Além disso, prevenção secundária em saúde mental, ou seja, detecção precoce e pronta intervenção em casos como depressão e transtornos ansiosos, evitam sua progressão.

Já na esfera organizacional, estabelecimento de comunicação com os funcionários sem ambiguidade e com clareza de expectativas, cultura de feedbacks, suporte às atividades, aumento da autonomia dos trabalhadores, são várias formas de reduzir fatores de risco para o burnout.

Conclusão

Embora não seja uma doença, a situação de estresse excessivo levando a sintomas de sofrimento emocional, conhecida como burnout, é real e parece cada vez mais importante. Ela não só representa um risco para o adoecimento mental, como pode na verdade ser o primeiro sinal de um quadro depressivo. Sua prevenção depende de iniciativas que reduzam o estresse tanto individual como organizacional.

A atual atenção ao burnout dos médicos vem lembrar que essa é uma população de risco para o adoecimento emocional em geral, e que necessita de particular cuidado com esse aspecto tão demandado em seu cotidiano de trabalho.

A opinião expressa nos artigos não correspondem à opinião da Bayer como empresa.

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Referências

  1. Chisholm D, Sweeny K, Sheehan P. Scaling up treatment of depression and anxiety: a global return on investment analysis. Lancet Psychiatry 2016. 3 (5), 415-424.
  2. International Classification of Diseases for Mortality and Morbidity Statistics – ICD11 – World Health Organization. https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f129180281 (acessado em 19/09/2019)
  3. Rotenstein LS, Torre M, Ramos MA, Rosales RC, Guille C, Sen S, Mata DA.Prevalence of Burnout Among Physicians: A Systematic Review. JAMA. 2018 Sep 18;320(11):1131-1150.
  4. Wurm W, Vogel K, Holl A, Ebner C, Bayer D, Mörkl S, Szilagyi IS, Hotter E, Kapfhammer HP, Hofmann P. Depression-Burnout Overlap in Physicians. PLoS One. 2016 Mar 1;11(3):e0149913.
  5. Awa WL, Plaumann M, Walter U. Burnout prevention: a review of intervention programs. Patient Educ Couns. 2010 Feb;78(2):184-90.