“Os médicos estão enfrentando uma crise.”

Dr. Kalil Duailibi

CRM SP 47.686
RQE nº 53292
Professor e Coordenador de Psiquiatria da Universidade de Santo Amaro e Presidente do Depto. Científico de Psiquiatria da Associação paulista de Medicina (APM).

A Medicina é uma profissão que exige uma longa e exaustiva formação, além de ser o curso com maior dificuldade de o aluno do ensino médio conseguir entrar, no Brasil, após o processo do Vestibular.

Durante sua formação, o jovem acadêmico tem uma carga horária extensa, uma exigência de desempenho, tanto de sua parte como de familiares, geralmente muito orgulhosos da profissão escolhida, e passam, cada vez mais, a participar de inúmeros estágios e plantões com alteração de seus ritmos circadianos1. Suas amizades e relacionamentos passam a girar, em sua maior parte, em todo o entorno da Medicina, frequentemente com rompimento de vínculos antigos, por vezes com mudança de cidades ou de bairros, passando a morar em locais mais próximos da sua Faculdade, além de um afastamento de seus vínculos familiares1,2.

Após a conclusão do curso, a prática da Residência Médica, ou da Especialização, por cerca de 3 anos, a carga horária de trabalho e estudos sendo a maior entre todas as outras profissões, além de conviver com riscos iminentes da Medicina, tais como a morte, o sofrimento de seus pacientes, a possibilidade de cometer erros cruciais, e a necessidade de atualização constante, colocam o jovem médico frente a grandes desafios: como conciliar sua vida pessoal com a profissional, suas necessidades financeiras (geralmente cobertas com mais trabalho em regimes de plantão noturno), seus relacionamentos afetivos mais instáveis e seus vínculos familiares mais distantes2,3,4.

Já em 2016, o Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina, alertou para o Suicídio crescente entre médicos: “Razões para Médicos cometerem mais Suicídio do que a População Geral: Estão Esgotados (Burnout), tem Acesso a métodos letais, Isolamento Social após a Universidade, Casamento com muitos atritos, empregos em situações ruins, além da dificuldade de pedir ajuda”5.

Em Novembro de 2018 o NEJM (New England Journal of Medicine) publicou uma série de artigos e entrevistas alertando sobre o Burnout Médico, chamando a atenção para o crescente problema que afeta a população médica em todo o mundo, tornando-se um sério problema de Saúde Pública. Noventa e seis porcento (96%!!) dos membros do conselho do NEJM concordam que o Burnout tem-se tornado uma questão extremamente preocupante, sem soluções fáceis (6). Há uma ideia de que metade dos médicos americanos estariam ou irão sofrer de Burnout em algum momento de suas vidas (6).

Na busca sobre o que poderemos fazer para prevenir e reverter este quadro, a Prof. Jéssica Dudley (7) ressalta a necessidade da detecção precoce do quadro, o treinamento dos tutores e líderes para percepção dos colegas acometidos, além do desenvolvimento de tecnologias que propiciem uma maior tranquilidade para o médico, no cuidado dos seus pacientes. No artigo do Prof. Nicolas S. Nguyen (8) enfatiza-se a necessidade de se criarem formas de abordagem destes médicos, sendo que a ajuda vinda de seus próprios colegas seria uma abordagem muito importante, estimulando o contato em horários determinados, em pequenos grupos, sem hierarquia, para conversas sobre as questões que os estariam incomodando, além de discussões de casos, e o contato fora dos ambientes médicos seriam estimulados.

E no artigo da Prof. Jessica Perlo (9), vem o recado final: precisamos encontrar formas de restaurar o prazer na atividade médica, engajar e motivar nossos médicos e não apenas lidar com seu estresse. Isto seria possível através de dividir as suas dúvidas, não só com a equipe médica, mas com toda a equipe, além de encarar seus pacientes como pessoas e não como problemas, fazer suas escolhas e decisões “com” o paciente e não “para” eles, diminuindo barreiras e estreitando o contato humano.

A opinião expressa nos artigos não correspondem à opinião da Bayer como empresa.

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Referências

  1. Sinsky C, Colligan L, Li L, et al. Allocation of physician time in ambulatory practice: a time and motion study in 4 specialties. Ann Intern Med. 2016;165(11): 753-760.
  2. West CP, Dyrbye LN, Shanafelt TD. Physician burnout: contributors, consequences and solutions. J Intern Med. 2018;283(6):516-529.
  3. Shanafelt TD, Boone S, Tan L, et al. Burnout and satisfaction with work-life balance among US physicians relative to the general US population. Arch Intern Med. 2012;172(18):1377-1385.
  4. Shanafelt TD, West CP, Sinsky C, et al. Changes in burnout and satisfaction with work-life integration in physicians and the general US working population between 2011-2017. Mayo Clin Proc. In press. https://doi.org/10.1016/j.mayocp.2018.11.035
  5. http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/?numero=260&edicao=3653#page/12 Jornal Medicina Set’2016, no. 260
  6. Physician Burnout: The Root of the Problem and the Path to Solutions, NEJM, Nov. 2108.
  7. Professional Fulfillment: Where We Want to Be; NEJM Interview · November 7, 2017
  8. Nguyen, Nicolas S.et al. Combating Clinician Burnout with Community-Building NEJM, July 31, 2018.
  9. Perlo, J et al. Applying Community Organizing Principles to Restore Joy in Work. NEJM, May 31, 2018