Realização Profissional: onde queremos chegar?

Dr. Ary Gadelha

CRM-SP 118.377
RQE nº 55853
Prof. de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo (EPM/UNIFESP)
Vice-Chefe do Departamento de Psiquiatria da EPM/UNIFESP

Viktor Frankl chegou à conclusão, após suas experiências em um campo de concentração, que as pessoas que viam um sentido em sua própria existência se tornavam mais fortes1.

O que motiva um médico? Que fatores levam a uma vida profissional satisfatória? Satisfação e realização profissional representam um mesmo conceito? E quais as consequências de não estar satisfeito com a própria vida profissional? Essas perguntas costumam não ser abordadas na formação médica, mais voltada para a discussão e treino de aspectos técnicos. Mas será que esses temas são relevantes para a prática médica?

Uma revisão de estudos na área, indica uma associação de satisfação com desfechos nos pacientes e para o próprio profissional2. Maior satisfação profissional esteve relacionada a maior confiança e melhor adesão ao tratamento entre pacientes. Já níveis maiores de insatisfação profissional estiveram relacionados a problemas clínicos mais frequentes e menor tempo de permanência no emprego.

Assim, parece que entender os fatores ligados à satisfação profissional e, em especial, como promovê-los pode ter grande impacto no exercício da medicina. Aqui é importante destacar a diferença que existe entre satisfação e realização profissional. Apesar de satisfação ser o termo mais usado em projetos de pesquisa, realização profissional parece capturar melhor o que esperamos da vida profissional. Satisfação remete a uma ideia de suficiência, enquanto realização se associa a engajamento e completude2. Essa discussão reflete uma questão maior sobre o que significa ter saúde mental. Muitos consideram que ter saúde significa não ter uma doença. No entanto, quando pensamos na nossa vida emocional, esperamos algo a mais, que nos sintamos bem, motivados e estimulados a enfrentar os desafios da vida. Esse conceito é conhecido como flourishing e traduz uma visão mais positiva sobre a própria saúde mental3. Assim, a realização profissional pode traduzir a busca por um estado de saúde mental que vai além de não ter doença.

O aumento da relevância do tema Burnout pode ilustrar melhor como essas questões se relacionam. Burnout foi um termo criado no contexto da saúde ocupacional. Não é um diagnóstico psiquiátrico, mas uma síndrome que descreve a situação de exaustão física e emocional associado ao trabalho. A síndrome é classicamente descrita em 3 domínios: exaustão emocional, cinismo/despersonalização e baixa auto-realização4. O termo remete diretamente a uma carga excessiva de trabalho, que classicamente evolui com estresse emocional, queda do rendimento no trabalho, aumento do número de horas trabalhadas, redução do envolvimento com família e amigos. Apesar de o número de horas de trabalho ser um fator relacionado, os dados sugerem que a sensação subjetiva de sobrecarga é mais relevante. E o que causa essa sensação de sobrecarga? Uma visão mais atual, destaca a complexa relação expectativas pessoais, cultura de desempenho e mais rapidez, volatilidade e menor clareza nas relações com as empresas.

A sensação de limite varia de acordo com o alinhamento da demanda profissional com os seus valores e expectativas, ou seja, com o sentido na sua vida. É evidente que mesmo havendo um alinhamento, diversos outros fatores podem modular essa impressão. O baixo retorno financeiro, condições de trabalho inadequadas e a falta de reconhecimento podem erodir as expectativas ao longo do tempo. Mudanças nas condições de trabalho, uma troca de chefia, por exemplo, mesmo sem mudança na carga horária, podem aumentar a insegurança e a percepção de reconhecimento, aumentando a chance de sobrecarga emocional. Uma vez se sentindo exausto, é comum passar a se envolver menos no atendimento aos pacientes ou mesmo com colegas de trabalho. Essa seria a dimensão do cinismo/despersonalização. Com o tempo, entra-se num automatismo, a profissão perde o sentido. A relação com os pacientes fica distanciada, sem envolvimento, o que importa é chegar ao fim do dia de trabalho. Embora se inicie na relação com o trabalho, as relações pessoais, família, amigos, também costumam ser afetados, reduzindo ainda mais o repertório de vida e aumentando a vulnerabilidade emocional. Nesse processo, dúvidas sobre a própria capacidade podem surgir. Ao atingir esse estágio, mesmo um médico muito vocacionado, pode se questionar: “Será que estou na profissão correta?”, “Foi para isso que fiz medicina?”.

A complexidade dessa relação se demonstra pela multiplicidade de caminhos que podem levar a essa situação. Uma pessoa com dúvidas sobre a sua escolha profissional, problemas familiares, conjugais, aspirações pessoais frustradas, todas essas situações podem levar ao mesmo resultado. Um cuidado na discussão sobre Burnout ou saúde mental no trabalho é que se deve evitar uma postura muito vitimizada do médico, ou que o empregador é sempre culpado. Certamente existe uma desigualdade potencial na relação entre empregadores e os médicos individualmente, mas essa relação e as suas consequências são melhor compreendidas num modelo de co-responsabilidade. Muitas vezes a sensação de exaustão emocional pode surgir a partir de uma questão pessoal. Uma vez que uma pessoa numa equipe fica mal, isso pode afetar a todos. Uma visão mais acolhedora e compreensiva da saúde mental poderia auxiliar nessas situações. É verdade também que mesmo nessa situação, aparentemente fora do alcance de uma organização de saúde, uma cultura institucional que promova o reconhecimento e o cuidado com problemas de saúde mental seria muito benéfica. Para atingir essa cultura de saúde mental, instituições e profissionais devem participar do processo de transformação. Infelizmente, falar de problemas emocionais ainda é um tabu entre os médicos.

O sentimento de realização profissional pode funcionar como um termômetro ou uma bússola nesse contexto complexo. Como termômetro, pois a sensação de que o trabalho não atingiu as suas expectativas deve indicar uma reflexão sobre o que está acontecendo, um alarme. O desenvolvimento dessa auto-percepção é uma ferramenta importante de bem-estar emocional. Só existe uma intervenção adequada com um diagnóstico preciso. Reconhecer o seu próprio estado emocional é o ponto de partida para o diagnóstico da situação. Viver angustiado, triste ou desmotivado não pode simplesmente ser aceito como normal. Conversar com colegas, procurar um psicólogo ou um psiquiatra pode ser útil para encontrar novos caminhos. O sentimento de realização profissional pode funcionar também como uma bússola, pois pode indicar a direção das mudanças, orientar a tomada de decisões. Eu me sinto realizado? Se não, o que está faltando? Como faço para chegar onde eu quero? Ter perspectiva, enxergar o caminho, torna mais fácil suportar os obstáculos que certamente acontecerão.

A opinião expressa nos artigos não correspondem à opinião da Bayer como empresa.

<< voltar para dicas

Referências

  1. Frankl VE. Em busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. 39ª ed. São Paulo: Editora Vozes; 2009.
  2. Brown S, Gunderman RB. Viewpoint:: Enhancing the Professional Fulfillment of Physicians. Academic Medicine. 2006;81(6):577-82.
  3. Keyes CLM. Mental Illness and/or Mental Health? Investigating Axioms of the Complete State Model of Health. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2005;73(3):539-48.
  4. Maslach C, Leiter MP. Chapter 43 - Burnout. In: Fink G, editor. Stress: Concepts, Cognition, Emotion, and Behavior. San Diego: Academic Press; 2016. p. 351-7.